quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cristianismo Sem Cristo

Tive o privilégio de ouvir as palestras de um dos escritores e preletores que mais aprecio, Michael Horton, em sua terceira vez falando no Brasil, desta vez no Congresso Internacional de Religião, Teologia e Igreja, realizado na Universidade Mackenzie, de 1 a 3 de março deste ano. Naquele evento também foi lançado mais um livro de sua autoria, Cristianismo sem Cristo.
Por conta da importância deste volume, julgo oportuna a publicação, em duas partes, de um ensaio preparado por José Mário da Silva, baseado na obra recém-lançada de Horton. Ele é presbítero da Igreja Presbiteriana de Campina Grande, na Paraíba, Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal da Paraíba e professor de Teoria da Literatura da Universidade Federal de Campina Grande, no mesmo estado. Também é autor de livros na área teológica e de crítica literária.
Cristianismo Sem Cristo
José Mário da Silva
Cristianismo sem Cristo: o evangelho alternativo da igreja atual, eis o mais recente livro de autoria do teólogo reformado norte-americano Michael Horton, e dado a conhecer à comunidade evangélica brasileira, notadamente a que professa a fé reformada. O referido livro foi publicado pela editora Cultura Cristã e, a meu ver, deve ser lido por todo crente desejoso de ter uma visão sóbria acerca de qual é, de fato, a situação vivida, atualmente, pela igreja evangélica mundial.
Com o brilhantismo argumentativo que lhe norteia os escritos, e, sobretudo, com inquebrável fidelidade às Escrituras Sagradas, Michael Horton realiza um contundente diagnóstico acerca da situação vivenciada, hoje, por expressivos segmentos do evangelicalismo moderno, os quais de há muito se têm afastado do conteúdo simples e poderoso do evangelho da graça de Deus e das insondáveis riquezas de Cristo, centrado, fundamentalmente, na morte de Cristo na cruz e na sua posterior e gloriosa ressurreição e, em direção diametralmente oposta, tem abraçado teologias espúrias, inteiramente distanciadas da Palavra de Deus e alicerçadas no insustentável edifício das “novas revelações” trazidas por certos líderes que dizem ser portadores de unções especiais da parte de Deus.
Não se tornou moda, hoje em dia, pessoas se autoproclamarem apóstolos, apóstolas, paipóstolos, mãepóstolas e, corolário dessa megalômana postura, exigirem autoridade espiritual semelhante à que era manifestada pelos verdadeiros apóstolos bíblicos?
A despeito de a abordagem avaliativa empreendida por Michael Horton ter como escopo e referência primeira a realidade espiritual da igreja dita cristã da América do Norte, não temos dúvida de que o duro libelo denunciatório construído pelo aludido teólogo tem tudo a ver com o que se passa nas entranhas da igreja evangélica brasileira, indisfarçavelmente contaminada por toda sorte de ensinamentos estranhos ao cristianismo histórico e contrários ao que é preceituado pela Palavra de Deus.
Já se disse que as reflexões teológicas mais impactantes nascem na Europa, são profundamente deturpadas nos Estados Unidos e, depois, exportadas para o continente latino-americano, em cuja geografia, via de regra, são acolhidas passivamente, com celebratório e acrítico entusiasmo por parte de comunidades inteiras, havendo pouca gente disposta a pensar biblicamente e a confrontar tais novidades com o que é exarado na única regra de fé e de prática da igreja do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a Palavra de Deus, que é inerrante, inspirada, infalível e suficiente Revelação de Deus para nós. Que o digam as falsas teologias da prosperidade, da confissão positiva, do teísmo aberto, dentre outras, as quais, num átimo de tempo, valendo-se do desconhecimento bíblico de muitos crentes e, ato contínuo, da quase completa ausência de discernimento espiritual de lideranças ingênuas, mal intencionadas e despreparadas do ponto de vista teológico, invadiram igrejas, espezinharam a ortodoxia cristã, dividiram comunidades e, por fim, espalharam o veneno mortífero da falsa doutrina, que mata a alma e afasta o crente do evangelho simples de Jesus Cristo, que é o poder de Deus para salvação de todo o que crê, conforme assevera o apóstolo Paulo em sua Epístola aos Romanos.
Cristianismo sem Cristo, na irrefutável exposição de Michael Horton, diz respeito à entronização triunfante, em muitas igrejas, de um evangelho sem Cristo, sem o Cristo das Escrituras Sagradas, que veio ao mundo não para viabilizar o normalmente egoístico projeto de felicidade das pessoas, mas sim para resgatar do poder do pecado todas as almas que, antes da fundação do mundo, lhe foram soberanamente entregues pelo Pai e conformá-las à sua própria imagem. Um evangelho sem cruz, comprometido antes com a teologia da glória, do conforto e da desmedida satisfação de todos os prazeres terrenos. Um evangelho destituído de sangue, sem cujo derramamento não pode haver remissão de pecados. Um evangelho sem arrependimento, dado que nesses arraiais o homem de há muito deixou de ser encarado como um pecador perdido e destinado à ira de Deus por causa da hediondez das suas iniqüidades. Um evangelho sem justificação pela fé somente, que se estriba na falácia de que o ser humano é essencialmente bom, carecendo apenas de suaves retoques éticos e leves aperfeiçoamentos morais. Um evangelho psicológico, voltado para temáticas puramente existenciais, ancoradas no aqui e no agora das existências terrenas. Um evangelho sem regeneração, que se recusa a aceitar o veredicto divino de que o homem está morto em delitos e em pecados, completamente alienado de Deus e, conforme o Senhor Jesus Cristo asseverou, absolutamente incapacitado para contemplar e entrar no reino dos céus com os seus esforços. Um evangelho sem santificação, que facilmente descamba para o antinomianismo dos assumidamente libertinos. Um evangelho sem a bíblica constatação da depravação radical do homem. Um evangelho sem a bem-aventurança eterna para os salvos e sem a condenação eterna para os que, renitentemente amantes de si mesmos, preferiram manter-se rebeldes ao senhorio de Cristo.
O Cristianismo sem Cristo rejeita a suficiência das Escrituras Sagradas, ignora o caráter objetivo da Revelação que Deus fez de Si mesmo e despreza, solenemente, o sólido conteúdo doutrinário presente na Palavra de Deus. O Cristianismo sem Cristo aposta todas as suas fichas no culto exacerbado da experiência e na aceitação descriteriosa de tudo quanto é ditado pela onipotente subjetividade dos que o praticam. O Cristianismo sem Cristo não tem escrúpulos em sentir-se insatisfeito com a Revelação de Deus manifestada nas Escrituras Sagradas, daí a razão de ele cultivar, com ares de espiritualidade superior, “as novas revelações” que diz receber diretamente do céu, num flagrante e abusivo atentado contra o Sola Scriptura, bandeira inegociável e princípio formal da Reforma Protestante.
O Cristianismo sem Cristo não proclama, irreservada e incondicionalmente, todo o conselho de Deus, como fiel despenseiro dos tesouros do Senhor, antes, estribado em frágeis e relativistas hermenêuticas pós-modernas, troca a pregação expositiva das Escrituras Sagradas pelo amigável compartilhamento das pseudo-verdades bem palatáveis e compatíveis com o depravado coração humano, tais como: Jesus Cristo, quando muito, é apenas Salvador, jamais Senhor absoluto das nossas vidas. Em versões mais escancaradamente liberais, Jesus Cristo não passa de um excelente exemplo moral para ser seguido. O homem é um ser essencialmente bom, só precisa descobrir caminhos para aperfeiçoar as suas enormes potencialidades. A igreja existe para satisfazer os meus caprichos e criar condições amplamente favoráveis para que eu me sinta bem e dê livre curso aos meus egoísticos projetos de felicidade.
Humanista, moralista, deísta, terapêutico, suavemente sedutor, individualista, o Cristianismo sem Cristo é o roteiro mais seguro para conduzir o homem ao inferno. Diante de um quadro tão terrível de corrupção doutrinária, Michael Horton, na parte final do seu livro, faz um chamamento de resistência à igreja de Cristo, no sentido de que ela, contra todos os desencaminhamentos já presentes na cristandade, mantenha-se fiel à Palavra do Senhor. Ao tesouro que Ele nos confiou a fim de que o guardássemos com zelo, pureza e amor. Tesouro que tem em Jesus Cristo, sua vida santa, sua obra na cruz e sua ressurreição gloriosa o seu sublime, inegociável e eterno valor.
Que Deus nos dê a graça de continuarmos unidos Àquele que “foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Romanos 4.25). E nos livre, também, de cairmos nas mazelas do gnóstico e anatemizado cristianismo sem Cristo do nosso tempo. Ou Cristo ou nada.

Semana passada escrevemos um artigo discorrendo sobre algumas das matrizes conceituais básicas que norteiam o livro Cristianismo sem Cristo, de autoria do teólogo norte-americano Michael Horton. Na oportunidade, dizíamos que, conquanto as reflexões do aludido teólogo se amparassem nas realidades observadas no território da América, elas poderiam perfeitamente ser aplicadas ao contexto da igreja evangélica brasileira, a qual, a olhos vistos, se tem afastado da simplicidade e da pureza inerentes ao evangelho de Cristo e, ato contínuo, tem, sem escrúpulo doutrinário algum, acolhido estranhos ensinamentos e práticas litúrgicas completamente destituídos de qualquer chancela da Palavra de Deus.
O evangelicalismo brasileiro, com as exceções devidas a todas as regras, tem manifestado um profundo desprezo pela objetividade do caráter doutrinário presente em toda a Escritura Sagrada. Aliás, em alguns círculos, a própria palavra doutrina tem sido encarada, no mínimo, com indisfarçada suspeição. O apreço pela doutrina tem sido considerado como o paradigma comportamental predileto de crentes frios, acadêmicos e inteiramente desinteressados por um envolvimento maior com a chamada obra do Espírito Santo. O lema privilegiado dos que raciocinam dessa maneira é o seguinte: “doutrina não me interessa, o que me interessa é a vida”.
O simplismo de tal postulação ignora que o cristianismo é uma religião revelada, fundamentada na revelação graciosa que Deus quis dar acerca de si mesmo, alicerçada na obra gloriosa que Jesus Cristo realizou no calvário para salvar a sua igreja e, de igual modo, na doutrina da Trindade bendita. Aliás, para que não tivéssemos dúvida alguma a esse respeito, foi o Senhor Jesus Cristo que, na Oração Sacerdotal, clamou ao Pai, dizendo: “santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17.17).
Como se pode ver, no conceito de Jesus Cristo é a Palavra de Deus que norteia a vida do crente, fornecendo-lhe balizas seguras para o caminhar cotidiano. A ênfase de Cristo é na suficiência da Palavra de Deus e não no império movediço das experiências humanas. Em suma, é na Palavra de Deus que a vida do cristão deve buscar a orientação segura para o seu santo e piedoso proceder. Ao divorciar o Espírito Santo das Escrituras Sagradas, pretextando uma espiritualidade supostamente mais elevada, o evangelicalismo dominante na geografia brasileira abre as portas para o misticismo e para o mais desmedido culto da subjetividade.
Na prática, “o que Deus me diz vale mais do que o Deus já disse em sua Palavra”. Palavra que, nesse caso, embora ainda seja recepcionada como inspirada e inerrante, há muito deixou de ser suficiente. Sim, porque se ela é suficiente, não há mais necessidade de que eu viva procurando novas revelações. Se a minha vida é pautada pela busca desenfreada por novas revelações, venham elas de onde e de quem vierem, então, conclusão lógica, a Palavra de Deus pode ser qualquer coisa, menos suficiente, autoritativa e normativa para todas as questões da existência.
Essa postura, ávida pelas chamadas novas revelações do Espírito, de acordo com o teólogo reformado Sinclair B. Ferguson, termina fazendo com que “o cânone de regras para a vida da igreja seja buscado cada vez mais na viva voz inspirada pelo Espírito dentro da igreja em vez de na voz do Espírito ouvida na Escritura”.
Além do misticismo triunfalista, o evangelicalismo brasileiro tem exibido também a perversa face da opulência financeira de alguns dos seus proponentes, estribados na mercadológica teologia da prosperidade, que faz da riqueza o sinal único e evidenciador das bênçãos de Deus. Aí estão os apóstolos, paipóstolos, mãepóstolas, dentre outras bizarras nomenclaturas, exibindo as suas milionárias mansões, os seus carrões importados e as suas sorridentes fisionomias nos nobres e caríssimos horários de televisão, tudo regiamente mantido pelo dinheiro facilmente retirado de crentes vulneráveis teologicamente e que, diferentemente dos que habitavam a região de Beréia, pouco vão às Escrituras para perquirir a genuinidade ou falsidade daquilo que lhes tem sido ensinado em nome de Deus.
Paralelamente ao triunfalismo de natureza econômica, temos também os evangelistas do curandeirismo barato e absolutamente superficial, que transformam os cultos em verdadeiros shows de sensacionalismo e descontrole emocional, ignorando totalmente a mensagem que salva o pecador da miséria espiritual em que ele se encontra e de uma eternidade definitivamente banida da presença gloriosa de Deus.
Aí está a gospelização triunfante da música evangélica atual, protagonizada, na maioria das vezes, por bandas e cantores que, sem mentoria espiritual séria e bíblica, nas asas de letras teologicamente insustentáveis, têm eletrizado multidões e, claro, ganhado muito dinheiro, fazendo do evangelho um verdadeiro negócio. Basta ver o quanto tais estrelas cobram para a realização de apresentações que em matéria de profanação do santo nome do Senhor em nada se diferencia daquilo que é praticado por quem não conhece a Deus.
Como diria Martinho Lutero, estamos, vergonhosamente, trocando a teologia da cruz pela teologia da glória, não a glória que Deus já preparou para os seus filhos desfrutarem na eternidade, mas sim a glória do aqui e do agora, construída por uma teologia pragmática e visceralmente comprometida com os egoísticos projetos de felicidade de quem, fora de Cristo, os tem concebido para a sua própria perdição.
Contra esse cristianismo oba-oba, deísta, terapêutico, psicológico e anticristão, precisamos nos insurgir, reconciliando-nos com a proclamação simples e poderosa da cruz do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, na qual encontramos graça que regenera, justifica, santifica e, no final da história, nos há de glorificar para sempre, libertando-nos, definitivamente, da mais leve sombra e do mínimo vestígio do pecado.
Talvez algum estranhe a tonalidade mais dura da presente reflexão. O problema é que, a partir do momento em que o coração do evangelho de Cristo acha-se ameaçado, a única postura esperável de quem verdadeiramente ama a Deus e valoriza a sua Palavra é que se tinge de firmeza e infrangível compromisso com as Escrituras Sagradas. Não podemos, em hipótese alguma, em nome de um conceito flácido e sentimental de amor, fazer vistas grossas a procedimentos que destoam flagrantemente daquilo que Deus preceitua em sua santa Palavra.
Ao se deparar com os judaizantes que, com a sua proposta de retorno aos rudimentos da lei cerimonial, estavam minando a suficiência da obra de Jesus Cristo no calvário, o apóstolo Paulo não hesitou em classificá-los de pregadores anatematizados e anunciadores de um outro evangelho, o qual não glorifica a Deus, não exalta a pessoa e a obra de Cristo e, por fim, fornece aos que o ouvem falsas esperanças. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos dê a graça de estarmos constantemente avaliando a natureza do cristianismo que professamos, a fim de não corrermos o risco de estar removendo os seus irremovíveis alicerces.
SOLI DEO GLORIA NUNC ET SEMPER.
Fonte: Editora Fiel
http://blogfiel.com.br/2010/05/cristianismo-sem-cristo.html

Um comentário:

Claudio Luis disse...

Excelente exposição da atual condição evengélica principalmente em nosso país.
A realidade é caótica, pois, as "igrejas" estão vivenciando esta pobreza teológica que não apresenta Cristo com a esperançã para o pecador.